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Guerrilha do Araguaia: resistência, repressão e memória silenciada

Guerrilha do Araguaia: resistência, repressão e memória silenciada


Levantes e revoltas brasileiras – Parte 1


Introdução

A história do Brasil é marcada por conflitos que revelam profundas disputas políticas, sociais e territoriais. Entre esses episódios, a Guerrilha do Araguaia ocupa um lugar singular: foi a mais longa experiência de resistência armada contra a ditadura militar (1964–1985) e ocorreu em uma das regiões historicamente mais negligenciadas pelo Estado brasileiro, a Amazônia oriental.

Este texto inaugura a série “Levantes e Revoltas Brasileiras”, propondo uma leitura didática e crítica sobre a Guerrilha do Araguaia, destacando o que foi, como ocorreu e qual foi o seu desfecho, sem perder de vista as disputas de memória que ainda hoje envolvem esse acontecimento.

O que foi a Guerrilha do Araguaia?

A Guerrilha do Araguaia foi um movimento de resistência armada organizado por militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) entre os anos de 1972 e 1974, durante o período mais repressivo da ditadura militar brasileira. Seu objetivo central era promover uma revolução socialista no país por meio da chamada guerrilha rural, inspirada nas experiências da Revolução Chinesa e na concepção de “guerra popular prolongada”.

O movimento se estabeleceu na região do rio Araguaia, abrangendo áreas do sul e sudeste do Pará, norte do então estado de Goiás (atual Tocantins) e oeste do Maranhão. Tratava-se de uma área estratégica: de difícil acesso, marcada por conflitos fundiários, ausência de políticas públicas e intensa exploração dos trabalhadores rurais.

Segundo Reginaldo Cerqueira Sousa, a guerrilha representou não apenas um enfrentamento militar, mas também um embate simbólico contra a lógica autoritária do Estado, que respondia às dissidências políticas com violência sistemática e apagamento da memória .


Como ocorreu a Guerrilha do Araguaia?

A presença dos militantes do PCdoB na região começou ainda na segunda metade da década de 1960. Disfarçados de trabalhadores rurais, comerciantes ou pequenos agricultores, os guerrilheiros passaram a conviver com a população local, aprendendo técnicas de sobrevivência na mata, conhecendo o território e oferecendo ajuda em áreas como saúde e educação, em um contexto de total abandono estatal.


O plano era preparar lentamente o terreno para a deflagração da luta armada, contando com o apoio do campesinato. No entanto, o Exército brasileiro passou a monitorar a região, realizando operações militares preliminares ainda antes do início oficial dos combates.

A partir de abril de 1972, iniciaram-se os confrontos diretos entre os guerrilheiros e as Forças Armadas. O Exército mobilizou milhares de soldados, aviões, helicópteros, bases militares improvisadas e uma complexa estrutura de inteligência e repressão. Ao longo de três grandes ofensivas militares, a guerrilha foi sendo progressivamente cercada, isolada e enfraquecida.

Além do confronto armado, o Estado lançou mão de estratégias de guerra psicológica, prisões arbitrárias, torturas, execuções sumárias e perseguição sistemática à população local, acusada de colaborar com os guerrilheiros. Camponeses foram presos, coagidos, deslocados à força e submetidos ao medo constante, criando um ambiente de terror que ultrapassava o campo de batalha.

Qual foi o final da Guerrilha do Araguaia?

O desfecho da Guerrilha do Araguaia ocorreu entre 1973 e 1974, durante a chamada Operação Marajoara, a mais violenta e decisiva ofensiva do Exército. Nesse momento, as Forças Armadas abandonaram qualquer aparência de legalidade e passaram a executar uma política de extermínio.


A maioria dos guerrilheiros foi morta após ser capturada, muitos sob tortura. Os corpos foram ocultados, enterrados em locais clandestinos ou simplesmente desapareceram. Até hoje, dezenas de militantes seguem oficialmente como desaparecidos políticos, e o Estado brasileiro nunca apresentou uma versão completa e transparente sobre o destino dessas pessoas.

Nesse aspecto, a Guerrilha do Araguaia se insere em uma longa tradição de violência estatal no Brasil. Como afirma Rodrigo Corrêa Diniz Peixoto:

“Nessa sua espantosa face, a Guerrilha do Araguaia se assemelha com a Guerra de Canudos (1896-1897), inclusive quanto a barbaridades cometidas nos seus estertores, como a decapitação de prisioneiros de guerra.” (PEIXOTO, 2011).

Após o fim da guerrilha, o silêncio foi imposto como política oficial. O regime militar censurou informações, destruiu documentos e intimidou moradores da região, produzindo um apagamento deliberado da memória histórica do conflito. Mesmo após a redemocratização, a Lei da Anistia dificultou a responsabilização dos agentes do Estado envolvidos nos crimes.


Considerações finais

A Guerrilha do Araguaia não foi apenas um episódio isolado da luta armada contra a ditadura. Ela revela aspectos profundos da formação histórica brasileira: a violência como instrumento político, a marginalização das populações rurais e amazônicas e a dificuldade do país em lidar com seu passado autoritário.

Resgatar a história da Guerrilha do Araguaia é um exercício de memória, justiça e reflexão crítica. Em uma nação marcada por revoltas silenciadas e narrativas oficiais excludentes, revisitar esses episódios é fundamental para compreender o presente e fortalecer a democracia.

Este é apenas o primeiro capítulo da série “Levantes e Revoltas Brasileiras”, dedicada a revisitar conflitos que ajudaram a moldar — e a questionar — o Brasil.

Referências

SOUSA, Reginaldo Cerqueira. Guerrilha do Araguaia: violência, memória e reparação. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, v. 66, 2019. DOI: 10.23925/2176-2767.2019v66p178-219. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/43200. Acesso em: 20 jan. 2026.

PEIXOTO, Rodrigo Corrêa Diniz. Memória social da Guerrilha do Araguaia e da guerra que veio depois. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 6, p. 479-499, 2011.


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